FAPEMIG: Como a ciência transformou a própolis-verde da Canastra em tesouro internacional
Pequenas, ágeis e indispensáveis. As abelhas sustentam a renda de pequenos produtores apícolas regionais por meio da produção de mel e derivados, além de garantirem a polinização de culturas agrícolas essenciais, contribuindo diretamente para a oferta de alimentos e para a segurança alimentar da população. Em 2018, as Nações Unidas proclamaram 20 de maio como o Dia Mundial das Abelhas. A data marca, na agenda mundial, um compromisso com a reflexão acerca da importância desses insetos e alerta para a redução cada vez maior de suas populações.
A pesquisadora agrônoma e doutora em Fisiologia de plantas do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), campus Bambuí, Ana Cardoso de Paula, explica que as abelhas são importantes indicadores ambientais, pois demonstram o equilíbrio de um ecossistema. “As abelhas são essenciais para a polinização de plantas nativas e agrícolas, ajudando na produção de alimentos e na conservação da biodiversidade. Sem elas, muitos ecossistemas e culturas agrícolas seriam prejudicados”, diz.
No Oeste de Minas Gerais, na região do Canastra, essas pequenas trabalhadoras estão diretamente ligadas à produção da própolis-verde. Altamente valorizada internacionalmente por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas, a própolis-verde da região é exportada para países como China, Japão e Estados Unidos, que buscam produtos naturais de alta qualidade.
Afinal, o que é a própolis?
Dentro das colmeias, as abelhas produzem diversos produtos, muitos deles com valor alimentício, medicinal e econômico. Ana Cardoso explica que a própolis funciona como uma proteção natural da colmeia. “As abelhas utilizam esse composto feito a partir de resinas das plantas para vedar frestas para impedir a entrada de microrganismos e manter a saúde do enxame”, explica.
A pesquisadora conta que, segundo apicultores da região, por vários anos, os produtores locais de mel viram a própolis como um problema. A substância grudava na tampa de cobertura das colmeias, atrapalhando a coleta do mel. A orientação da Escola Agrícola de Bambuí, hoje IFMG – campus Bambuí, ajudou na conscientização sobre o seu valor comercial.
“Os apicultores da cidade de Bambuí e região começaram a produzir própolis com foco na comercialização, sendo inicialmente vendida para compradores de Belo Horizonte. No final da década de 1980, a própolis ganhou notoriedade e o seu preço foi subindo até se tornar o carro-chefe para muitos apicultores da região. Os resultados das pesquisas fazem com que sua importância e notoriedade aumentem”, conta Ana Cardoso.
A pesquisadora destaca que a parceria entre a academia e os produtores trouxe os apicultores para dentro do IFMG. São realizadas pesquisas, capacitações e o desenvolvimento de novas tecnologias para o manejo, o beneficiamento da própolis-verde e melhorias para a apicultura.
Edeir Ferreira é sócio-fundador da Associação dos Apicultores Produtores de Própolis Verde do Alto do Rio São Francisco e Entorno (APVASP), produtor de própolis-verde, e estima ter 350 colmeias.
“É muito importante para nós a continuidade das pesquisas, porque precisamos estar sempre atualizados. Com a professora Ana temos tido uma resposta boa”, destaca. Para Ferreira, o apoio das pesquisas é fundamental para solucionar desafios da produção.
Artepillin-C
A própolis-verde brasileira é rica em componentes altamente valorizados no mercado mundial por seu potencial antimicrobiano, antioxidante e antitumoral, entre outros benefícios relacionados à saúde humana. Um desses compostos ativos é o Artepillin-C. Pesquisas coordenadas pela pesquisadora já encontraram relação entre o composto e a vegetação nativa do território Canastra.
Pesquisas recentes mostram que a presença do Artepillin-C está diretamente ligada ao alecrim-do-campo, principal planta utilizada pelas abelhas na produção da própolis-verde. “A qualidade da planta influencia diretamente a qualidade da própolis. Além disso, pesquisas realizadas pelo nosso grupo, a partir de técnicas avançadas de extração, correlacionam o perfil de voláteis existentes no alecrim-do-campo como atrativo para polinizadores, como, por exemplo, as abelhas”, explica Ana Cardoso.
A pesquisa conta com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).
A pesquisadora alerta para o perigo do avanço de práticas que ameaçam o pasto apícola, conjunto de plantas, árvores e flores que fornecem os recursos básicos de sobrevivência e produção para as abelhas, incluindo o alecrim-do-campo, como desmatamento, queimadas, uso inadequado do solo e substituição da vegetação nativa. “A perda dessa planta compromete toda a cadeia da própolis verde”, alerta.
Difundindo conhecimento
Durante os dias 29 e 30 de maio acontece, em Bambuí, o 4º Seminário de Apicultura e Meliponicultura do Alto São Francisco e Território Canastra e o Circuito Mineiro de Apicultura e Meliponicultura. Saiba mais informações clicando aqui.
Segundo a pesquisadora, o evento busca fortalecer a apicultura, em especial a cadeia da própolis-verde e do mel, promover a troca de conhecimentos e aproximar produtores, pesquisadores, instituições e entidades do poder público. As atividades são voltadas para apicultores, técnicos, pesquisadores, estudantes, interessados no setor e para a comunidade em geral.
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