• Bambuí, 09 de Dezembro de 2019

Firmino Júnior: Graça com chapéu dos outros

Vira e mexe os ditados populares entram em nossas vidas. Semana passada, um em especial, mexeu com a minha atenção: “Fazer graça com o chapéu dos outros”. Na prática o provérbio indica que uma pessoa está agindo com o nome da outra para agradar um ou mais terceiros, claro, sem o consentimento daquele que de fato merece o mérito. Não é necessário dizer que de meritocracia e de boa vontade esse sujeito pouco ou nada entende.

A origem do dito se deu ainda no tempo em que ainda era comum as pessoas cobrirem a cabeça com um chapéu como marca de fino trato. Costumava-se tirar o chapéu quando se cumprimentava uma mulher ou alguém digno de respeito. Daí nasce a frase “Fulano fez cortesia com o chapéu alheio”, isso, toda vez que se usava um chapéu que não era o seu, ou seja, fulano apoderou-se daquilo que ele não detinha, não tinha mérito, enfim, não conseguiu e deveria ter a dignidade de não fazê-lo. Na política, por exemplo, a frase é indicada para aqueles sujeitos que usam coisas públicas que não lhes pertencem. Pessoas que usam a estrutura do governo, viajam com despesas pagas pelo poder público para fins particulares, usam da publicidade paga pelas prefeituras e governos para aparecer. No geral, são crápulas, lobos disfarçados em pele de cordeiro.

Sabemos que ditados nada mais são que um reflexo da realidade, afinal, ninguém cria um do nada, só para passar o tempo: “Pimenta [sem trocadilho político] no olho dos outros é refresco”, “Cavalo dado não se olha os dentes”, “De graça até injeção na testa”, são alguns bem conhecidos por todos, agora “Graça com chapéu dos outros” para mim foi novidade e me trouxe até mesmo um pouco de tristeza, pois, pensar em tudo que tem acontecido não só na política ultimamente, tem feito esse dito reviver com tanta força que me fez perceber o quanto as pessoas têm deixado os princípios de lado.

Infelizmente esse ditado tem se aplicado cada dia mais e mais. Atualmente quase não há mais chapéus, mas capas longas e grossas. As pessoas estão mais espertas na arte da enganação. Escondem por mais tempo, acham brechas inimagináveis nas leis, enfim, tem se tornado cotidiano ficar com o que é dos outros. Vemos isso na TV, nos projetos educacionais, nas verbas para saúde e demais setores. Parece que o ditado tem “caído como luva” na atualidade.

Eu particularmente não sinto prazer em ficar com o que é dos outros e creio que muita gente também não. E mais triste ainda é saber que muitas vezes somos chamados de ingênuos e não valorizados pelo caráter. Essa é outra questão problemática que me veio com os provérbios, mas merece um artigo inteiro. Eu só sei que a partir de hoje passo a prestar melhor atenção nos provérbios e no que eles realmente dizem. A sabedoria popular vale muitas vezes mais que muita cientificidade, e ao escutar esse provérbio, me fez pensar mais do que muito artigo que li nos meus anos de estudos. A partir de hoje decidi valorizar os biscoitos da sorte e as frases marcantes dos antigos.

Para encerrar, depois de toda a tempestade, restou-me outro provérbio: “Tirar o cavalo da chuva”. No século XIX quando se fazia uma visita breve, se deixava o cavalo ao relento em frente à casa do anfitrião. Se o papo estivesse bom e o dono autorizasse, o cavalo poderia ir para um local coberto, ou seja, fora da chuva – na época em que ainda chovia. Hoje, quer dizer que a pessoa deve desistir de alguma coisa. E é o que eu digo para esses sujeitos: “tirem o cavalo da chuva”, porque desse jeito, “vocês vão dar com os burros n’água”.

FIRMINO JÚNIOR, bambuiense, é professor na PUC Minas e no Instituto Federal, também jornalista e escritor, tem mestrado na área de Comunicação. Contato: firmino.junior@yahoo.com.br


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