• Bambuí, 09 de Dezembro de 2019

Firmino Júnior: Receita para desapegar

Grande parte dos textos sobre reflexão que eu leio por aí tem sempre uma frase marcante: Pratique desapego! Eu mesmo já a usei nos meus rabiscos. Entretanto, praticar desapego não parece fácil, ainda mais quando nem sequer sabemos que somos extremamente apegados. Creio eu que poucas pessoas já pararam para pensar no apego que temos por tudo, tudo mesmo. Eu, por exemplo, tenho uns apegos engraçados e outros nem tanto. Apego por lembranças ruins, por papéis que no fundo sei que não servirão mais, mas que faço questão de guardar e enchem meu armário. Tenho apego por alguns objetos velhos e CDS antigos que provavelmente nem funcionam. Meus brinquedos de infância tenho todos.

O fato é que a questão do desapego é bem mais intensa. Se apegar a alguns objetos antigos, jornais e revistas velhas, tudo bem! São coisas que ocupam um lugar concreto, enchem cantos que poderiam estar mais arejados e que se limpos dariam uma sensação mais gostosa a casa. Esses parecem fáceis de resolver, não maltratam a alma e nem pressionam as feridas. Mas e as lembranças ruins as quais me referi inicialmente? Ah! Essas sim têm me incomodado. Essas sim eu quero praticar o famoso desapego.

Quem dera fosse tão fácil praticar o desapego quanto falar sobre ele. Um monte de gente posta, outros compartilham e uns poucos comentam. Algumas figuras de pessoas de braços abertos em um dia lindo de sol costumam acompanhar essa frase. Mas e aí? Será que é por aí que se pratica o desapego? Falando sobre ele? Sinceramente eu acho que não. Desapegar vai muito além. Eu acredito que seja mais ou menos como ter uma vassoura e querer varrer um deserto, o que não me parece nada simples.

Tenho praticado o desapego de uma maneira que funciona bem para mim, mas não sei se ajudará mais alguém. De toda forma, vai a dica: Para apagar lembranças ruins, busque emoções novas. Não importa se no final serão boas ou más, apenas devem ser novas. Para os objetos velhos, busque trocar de lugar semanalmente. Um dia será tão chato e tão cansativo que você se desapegará deles sem sofrimento. Para pessoas que você necessita desapegar completamente, e essa sim, a meu ver, é a tarefa mais difícil, mantenha-as a uma certa distância que não te causará um sentimento de perda, ou seja, nem tão perto, nem tão longe. Com o tempo surgirão outras pessoas e a distância daquelas que não acrescentam nem será sentida.

Talvez elas não sejam tão eficazes para todo mundo, mas para mim tem funcionado melhor do que sair falando por aí: “Eu pratico desapego”. De fato, ainda não consegui atingir um nível de desapego que me traga a felicidade que eu quero, mas a cada dia tenho me sentido mais leve, parece que tirei aquele famoso “peso das costas”.

Um monte de gente já falou sobre apego, discutiu o desapego, mas ninguém nunca deu uma solução. Bom, não estou aqui para isso e quem me dera eu conseguisse. Certamente eu sofreria bem menos. Só me atrevi mesmo a dar algumas dicas, confesso que baseadas no poeta Fernando Pessoa, que diferente do que muitos gastam páginas para escrever, em poucas palavras me fez pensar sobre a questão e ir um pouco mais além do que finalizar com “Pratique o desapego!”. Concluo, então, com o que me fez refletir sobre isso e que talvez influencie mais algumas pessoas: “Afinal, se coisas boas se vão é para que coisas melhores possam vir. Esqueça o passado, desapego é o segredo!”

FIRMINO JÚNIOR, bambuiense, é professor na PUC Minas e no Instituto Federal, também jornalista e escritor, tem mestrado na área de Comunicação. Contato: firmino.junior@yahoo.com.br


Compartilhe:

COMENTÁRIOS