• Bambuí, 09 de Dezembro de 2019

Firmino Júnior: Levante, racismo e cotas

O dia 16 de junho talvez seja o mais adequado para uma reflexão sobre o racismo. Nessa data, mais precisamente em 1976, ficou cravado na história da humanidade o episódio conhecido como Levante de Soweto. Considerado um dos mais truculentos episódios de rebelião negra do pós-guerra, os protestantes queriam corrigir a inferioridade das chamadas “escolas negras” na África do Sul.

O balanço final culminou com a morte de quatro estudantes negros, um deles com 13 anos de idade. Ah, isso ocorreu não faz nem 40 anos, época em que o sistema segregacionista da África do Sul, que vigorava desde 1950, obrigava os negros a pagarem para frequentar escolas sem nenhuma qualidade, enquanto os brancos podiam ir às melhores gratuitamente. Um verdadeiro absurdo, entre muitos outros.

Este cenário – que é só um exemplo de como a espécie humana é racista e segregacionista – incita um debate polêmico, permeado por uma série de questões políticas e ideológica: as cotas raciais. Não escrevo para convencer ninguém a nada, apenas para ajudar a flexionar um outro lado da história. Começo, por dizer com clareza, que as cotas raciais, dentro do contexto do cotismo social, não é um privilégio para os negros, mas sim, uma forma de reparar anos e anos de tortura e humilhação, como no caso da África do Sul. Será que no Brasil temos ou tivemos escolas negras e brancas?

Antes de continuar, tenho a convicção de que os negros, e nem ninguém, precisam da piedade dos outros. Os negros, como os brancos, pardos, amarelos ou todos nós, temos sim condições suficientes de disputar cargos, concursos, empregos, vestibulares, etc. Entretanto, a questão não está aí, está nos indiscutíveis números brasileiros, que refletem parte do mundo civilizado.

O que dizer sobre o dado divulgado pelo IPEA de que mais de 60% da população pobre é negra e 70% dos indigentes são negros? O que dizer sobre a informação real de que no Brasil há 33 milhões de negros pobres e 15 milhões vivendo em miséria absoluta? Quantos colegas seus de faculdade eram negros? Quantos chefes negros você já teve? Por quantas vezes você foi a um tribunal e o juiz era negro? Será mesmo que diante desses números, dá pra dizer que somos um país que oferece igualdade de oportunidades para todos? Falo da regra, não da exceção...

Segundo Rob Batista, que defende as cotas raciais, “os negros representam 70% dos 10% da população mais pobre do país, enquanto que os brancos somam 85% dos 10% da população mais rica. Assim como o rico herda riquezas de seus antepassados sem ser responsável por elas, nesse mundo, os pobres também herdam pobreza. Alguns parecem esquecer que miséria também se herda, mesmo quando não se tem culpa”.

Tenho convicção de que as cotas não são a melhor solução para vencer o racismo, mas talvez seja a única. Entretanto, como se trata de uma medida temporal, ou seja, que quando atingir seu objetivo de igualar as pessoas irá terminar, é sim um caminho para ressarcir e devolver aos negros os danos causados por anos e anos de escravidão e inacessibilidade a direitos básicos da vida humana. E não adianta dizer que o que é preciso é aumentar as oportunidades, pois, se o acesso ainda continua dificultado a uma parcela da população, as diferenças entre nós, seres humanos, nunca serão devidamente sanadas. Mas como disse, é só uma ponderação...

FIRMINO JÚNIOR, bambuiense, é professor na PUC Minas e no Instituto Federal, também jornalista e escritor, tem mestrado na área de Comunicação. Contato: firmino.junior@yahoo.com.br


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