• Bambuí, 10 de Dezembro de 2019

Firmino Júnior: Sinceridade

Se há uma coisa complexa na humanidade, essa coisa e a sinceridade. Complexa, porque há em nós um desejo de que as pessoas sempre sejam sinceras. Complexa, porque quando elas realmente são, muitas vezes nos fazem sentir ofendidos e até chegamos ao ponto de ficar magoados. O escritor irlandês Oscar Wilde, que se tornou um dos mais populares dramaturgos de Londres, chegou a dizer que “pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal”. Ou seja, é preciso de equilíbrio, em tudo, até na sinceridade, mas este [equilíbrio] é um assunto para outro artigo. “Ele é sincero até demais”, “sinceridade demais atrapalha”, “você o ofendeu por causa de tanta sinceridade”. Essas são expressões que a gente ouve sempre e até concorda às vezes. Mas, afinal de contas, até que ponto a sinceridade é algo que realmente faz mais bem do que mal? Seria a sinceridade algo que deve ser cumprida à risca? Ou algo que devemos ponderar a fim de poupar outras pessoas de uma dura verdade ou realidade? Marquês de Maricá (ou Mariano José Pereira da Fonseca), ministro da Fazenda e senador do Império do Brasil de 1826 a 1848, não tinha dúvidas. Para ele: “A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis” Eu gosto da definição que o líder religioso da linhagem da escola Gelug do budismo tibetano proferiu. Segundo Dalai Lama “a única coisa que importa é colocar em prática, com sinceridade e seriedade, aquilo em que se acredita”. Na verdade, ele nos lembra de que o limite da nossa sinceridade está instalado no poder da nossa crença. Entremeado na frase, acho que está implícita uma assertiva que nos manda fazer exatamente aquilo que nossa intuição nos manda. A sinceridade deve aparecer até o ponto em que acreditamos, para o bem, naquilo que fazemos. Fora isso, devemos ter precaução. Tenho convicção de que essa é uma boa síntese do tema que tratamos aqui. O jornalista francês Tristan Bernard disse que os homens são sempre sinceros, apenas mudam de sinceridade, nada mais. Mas será que podemos mudar de sinceridade? Sei lá... Em uma coisa ou outra ok, concordo. Nas convicções pessoais, da ordem da moral e da ética, de cunho intrínseco e familiar, penso que não podemos ser tão levianos. O mais universal dos poetas portugueses, Fernando Pessoa, com sua sempre complexa redação, parafraseou certa vez: “Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária”. Para finalizar, concluo que sou um defensor da sinceridade prudente, responsável, equilibrada e que não faça mal. Mas como podem ter notado, preferi utilizar o que os outros dizem, em vez de tratar desse assunto tão complexo. Por falar em citação, Luigi Pirandello, um famoso romancista siciliano que renovou o teatro no mundo inovando o humor, comentou certa vez que “nadas é mais complicado que a sinceridade”. De todos que convocamos aqui, talvez ele, o Pirandello, tenha sido o que menos disse, mas o que mais sincero se apresentou. FIRMINO JÚNIOR, bambuiense, é professor na PUC Minas e no Instituto Federal, também jornalista e escritor, tem mestrado na área de Comunicação. Contato: firmino.junior@yahoo.com.br

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