• Bambuí, 09 de Dezembro de 2019

Firmino Júnior: A sociedade do microondas

Acredito que ninguém – mas ninguém mesmo – duvide que vivenciamos o que vou chamar aqui de “A sociedade do microondas”. Um tempo onde tudo tem que ser imediato. Usando a analogia em questão, lembro-me que bem a pouco tempo, costumava ver minha mãe juntar o que sobrara do almoço, o arroz, o feijão, a carne moída e, depois de fazer uma mistura tão deliciosa quanto duvidosa, ali colocava farinha, um pouco de queijo e quebrava um ovo. Da sala, sentia aquele cheiro incontestável, mágico até. Ouvia a batida da colher na panela e a raspada na rapa e, quando eu já estava quase hipnotizado, ela gritava: “Tá pronto, pode vir comer”. Não havia nada mais saboroso do que aquele mexidão, a não ser, é claro, ouvir e sentir o preparo da refeição mais esperada do dia. Estamos perdendo isso. Hoje, talvez por trabalhar até 12, 14 ou 16 horas por dia, não temos mais tempo de fazer a gramática do mexidão. Destampamos as panelas das sobras do almoço sem nenhuma harmonia. O arroz, o feijão e a carne moída já não são mais unidos como antes e vão para o prato assim que saem da geladeira. Ovo, queijo e farinha, nem sempre tem mais. E pronto! Em pouco mais de um minuto a comida está amargosamente quente para ser experimentada. O que minha mãe gastava 20 minutos pra fazer, hoje gasto dez vezes menos. Isso sem falar quando o que se tem é só o macarrão de três minutos. Na verdade, na sociedade que experenciamos, a sociedade do microondas, perdemos a cautela, a paciência. Prezamos pelo imediatismo e, com isso, perdemos o sabor... As coisas não têm mais aquela mexida gostosa... O bate-papo da praça, a atenção numa conversa, uma simples dormida depois do almoço tem virado pecado mortal. Mas ainda pensando no microondas, é fácil notar a diferença no gosto de antes e de agora, e também como o arroz esfria mais rápido quando é esquentado em qualquer coisa que não seja um fogão. Esquenta mais rápido, mas esfria também. É assim que está tudo acontecendo em todas as formas de relação humana. Vários foram os pesquisadores e estudiosos que definiram a nossa sociedade. Jean Baudrillard chamou-a de “Sociedade do Consumo”, Guy Debord de “Sociedade do Espetáculo”, Jean Lipovetsky de “Sociedade Hipermoderna”. Com todo respeito aos pensadores franceses, tudo isso pode ser resumido a um nome mais fácil: “A Sociedade do Microondas”. Confúcio tinha uma frase célebre: “Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha”. Infelizmente as pessoas que vivem em nosso tempo – e nós inclusive – não temos mais conseguido transportar nada pouco a pouco. Queremos fazer uma montanha num único dia. Tudo tem que ser a jato, rápido, rasteiro. Não temos tempo a perder, nem paciência para esperar. Mas temos que mudar. Assim como está, a vida perde a graça e nós deletamos momentos fantásticos, assim como o mexidão que minha mãe fazia. David Kennedy – um historiador da Universidade de Stanford nos Estados Unidos – descreveu as características do presidente Roosevelt, que o levaram a permanecer na presidência daquele país por doze anos. Uma delas, era a capacidade que ele tinha de se ligar as pessoas, com um caráter forte e muita calma e paciência, como quando fez um príncipe inglês comer cachorro-quente para conseguir o apoio dos americanos para a segunda guerra mundial. E conseguiu! A lição que fica é: menos microondas em nossas vidas e mais, muito mais, fogão à lenha. FIRMINO JÚNIOR, bambuiense, é professor na PUC Minas e no Instituto Federal, também jornalista e escritor, tem mestrado na área de Comunicação. Contato: firmino.junior@yahoo.com.br

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