• Bambuí, 17 de Setembro de 2019

Pagamento da Vale por Brumadinho provoca brigas em famílias pelo dinheiro

O rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, que tirou centenas de vidas em Brumadinho e causou um prejuízo socioeconômico de dimensões ainda incalculáveis, foi apenas o estopim para mais um infortúnio se abater sobre diversas famílias atingidas. Depois do primeiro baque, o dinheiro se tornou motivo de mais uma ruptura: a de laços familiares. Oferecida pela Vale a parentes de mortos e desaparecidos para reparar minimamente a catástrofe, a quantia de R$ 100 mil por vítima tem motivado a fragmentação de diversos núcleos familiares, tornando-se motivo de briga entre cônjuges, companheiros, irmãos, filhos e pais que disputam o auxílio financeiro.

A batalha não é regra, mas, em alguns núcleos, crianças que sofrem a perda do pai ou da mãe estão sendo submetidas a algo ainda mais cruel. Tendo direito a esse primeiro montante e sendo herdeiras de uma indenização que está por vir, a guarda delas se tornou centro de disputa. E, em meio à dor e aos conflitos, advogados de diversas partes do país desembarcam na cidade distribuindo cartões até em velório. A Defensoria Pública de Minas Gerais está de olho nos abusos e aguarda o encerramento das buscas para regulamentar as situações.

 

São inúmeros casos de disputas. Entre eles, os de ex-mulheres e ex-maridos que estão voltando para casa e requerendo direito aos R$ 100 mil. O retorno repentino tenta tirar de cena pais e mães com quem os antigos cônjuges, vítimas da tragédia, passaram a morar depois da separação. O caso se agrava ainda mais quando a pessoa que morreu ou está desaparecida vivia com um companheiro, sem ter formalizado um segundo casamento ou união estável. Sem contar os relacionamentos duplos.

Dois dias depois do rompimento da barragem da Vale, por exemplo, duas mulheres reivindicavam a condição de esposa de um funcionário terceirizado da Vale e chegaram a bater boca no Instituto Médico-Legal de Belo Horizonte. Uma delas alegou ter união estável e morar há dois anos com a vítima, em Venda Nova, na capital. A outra, que chegou ao local com os documentos pessoais para reconhecimento do corpo, também se intitulava esposa, dizendo não haver casamento no papel, mas que morava com o trabalhador, também em BH. Por fim, o homem foi registrado como solteiro e tendo como herdeiras as duas filhas de outros dois relacionamentos.

Para a diarista Malvina Firmino Nunes, de 61 anos, a dor de perder o filho, o auxiliar de almoxarifado Peterson Firmino Nunes Ribeiro, de 35, aumentou depois de se ver privada do convívio com os três netos. Ela conta que não os vê desde o enterro, no último dia 1º. Falou com o menino de 15 anos, recebeu afago do neto de 11, mas não conseguiu nem se aproximar da menina, de 6. Malvina era economicamente dependente do filho e agora está enfrentando dificuldades, já que não tem condição física nem psicológica de fazer a limpeza semanal de um escritório onde trabalhava.

A companheira e o filho não tinham a situação conjugal formalizada. “A gente não quer, o direito é dos meus netos. E espero que minha nora compre uma casa para eles morarem, porque meu maior medo é de as crianças ficarem desamparadas. Mas ela não entendeu isso, acha que eu quero os R$ 100 mil. Pelo contrário, quero que usem para estudar. Só não desejo que eles entrem nesse mundo ruim que tem por aí”, afirma. “Já não basta o sofrimento de perder meu filho, agora não tenho mais o direito de ter perto um pedaço dele. Essa tragédia destruiu e está destruindo muitos lares. Meu coração está cheio de sangue”, diz. “Esse é um dinheiro da maldição”, conclui.

A irmã de Peterson, Mary Firmino, endossa: “A Vale pode dar bilhões, mas nada vai trazer de volta a vida do meu irmão e o que tínhamos antes. Com ele aqui, poderíamos abraçar, beijar, brigar e voltar às boas. Agora, só choramos”. “Não é o momento de separar, mas de trazer os meninos para minha mãe ver e aliviar essa angústia. Por mais que minha cunhada esteja sofrendo, minha mãe também está”, diz Mary. O Estado de Minas entrou em contato por telefone com a nora de Malvina, mas ela não quis se manifestar sobre a questão.


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