• Bambuí, 11 de Dezembro de 2019

OMS oficializa como doença dependência em videogames

Foto: Arquivo Pessoal

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o vício em jogos como um dos problemas de saúde mental listados na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID). Em janeiro deste ano, a medida já havia sido divulgada, mas faltava a publicação oficial. A OMS considera a dependência de jogos um padrão de comportamento persistente ou recorrente, que pode ser tão grave a ponto de se tornar prioridade diante de outras atividades do cotidiano. 

De acordo com o psiquiatra Daniel Spritzer, coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (Geat) e um dos elaboradores do documento, há três sinais que caracterizam o distúrbio. “Quando o indivíduo não tem controle sobre a frequência, a intensidade e a duração da atividade; quando ele a prioriza, deixando de lado responsabilidades ou compromissos; e/ou quando mantém ou aumenta o ritmo, mesmo que já tenha percebido os prejuízos causados”, diz.

“Primeiro, eu sentia uma carência do jogo, literalmente. Eu sentia um vazio, de que algo importante fazia falta se eu não jogasse, e isso me fazia muito mal. Depois, isso se transferiu para as pessoas: eu precisava estar em contato com quem jogava para não me sentir sozinho”, conta o universitário Lucas Geordane, 25, que já passou quase 48 horas online.

Spritzer explica que o efeito do vício digital é equivalente ao de outros. “Ele libera o neurotransmissor chamado ‘dopamina’, responsável pela sensação de prazer, de recompensa ao cérebro. Quanto maior a liberação de dopamina, maior o desejo do indivíduo”, esclarece o psiquiatra. 

A sensação de prazer se refletiu de forma negativa no convívio familiar e nos estudos de Lucas. “Deixei de ficar com meus parentes e com amigos para ficar jogando. Já até deixei para fazer trabalho escolar três horas antes da entrega para ficar mais tempo no computador e no videogame”, afirma o jovem, que há oito meses tem reduzido o acesso aos jogos. 

Segundo Spritzer, a classificação ajuda na identificação dos riscos que o vício envolve. No entanto, o psiquiatra alerta que o principal objetivo não é que o dependente deixe de jogar, mas que assuma o controle da situação. “Jogar é uma atividade benéfica, que faz bem. Queremos que o indivíduo consiga reverter esse quadro, tornando-a um prazer de verdade”, pontua. 

Outros transtornos servem de gatilho para desencadear vício

A adição em jogos online ou offline pode estar relacionada a outros distúrbios de saúde mental, de acordo com o psicólogo Wesley Carneiro. “Depressão, ansiedade, transtorno de déficit de atenção e outros tipos podem contribuir, porque os jogos servem, muitas vezes, como fuga dessa realidade”, afirma. 

O especialista enfatiza a importância de se identificarem, o quanto antes, esses gatilhos. “Se conseguimos determinar algum desses transtornos, nós vamos tratá-lo de imediato. Isso vai permitir que a dependência de jogos até desapareça por conta própria, sem necessidade de outras intervenções”, diz.

Minientrevista

Daniel Spritzer
Psiquiatra 


Qual a linha que separa e define um comportamento patológico do exagero na prática de um hobby?

Qualquer vício pode envolver substâncias ou comportamentos. Ele é caracterizado quando um indivíduo deixa de fazer algo para se dedicar àquilo somente. Um dos indícios é a perda – de contatos sociais, baixo desempenho escolar, alterações constantes de humor. 

Existe algum aspecto particular dos games que diferencia comportamentos patológicos relacionados a eles dos ligados a outros meios de comunicação, como a televisão, por exemplo? 

A interatividade é o principal fator que os diferencia da televisão, levando a uma resposta de ganho de prazer muito maior. As pessoas se viciam em algo que lhes dá prazer de alguma forma, e a interatividade que os jogos e a internet proporcionam é um dos principais fatores para isso. 

Que hábitos comportamentais podem ser utilizados no dia a dia para ajudar a evitar essa condição?

Não deixar de lado as outras atividades da vida, das mais simples às de maior responsabilidade. Tentar manter o jogo como um hobby, que cause um prazer sadio, como qualquer outro que não atrapalhe sua rotina.


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